Imagina
viver num mundo em que há a possibilidade de acordares de manhã e te dares
conta de que o frigorífico fez greve, o micro-ondas meteu uma licença sem
vencimento, a televisão meteu baixa com atestado médico e o teu carro pediu a
reforma.
Quanto ao
frigorífico, tendo em conta que o mais provável é estragarem-se as coisas que
lá tinhas dentro, é uma oportunidade para renovares o stock (incluindo aquele
frasco de maionese perdido no fundo da gaveta do fundo cuja validade já passou
em 2013).
Super fixe,
hã?
Quanto ao
frigorífico, tendo em conta que o mais provável é estragarem-se as coisas que
lá tinhas dentro, é uma oportunidade para renovares o stock (incluindo aquele
frasco de maionese perdido no fundo da gaveta do fundo cuja validade já passou
em 2013).
Na verdade, o
micro-ondas é um pouco mais chato. Toda a gente sabe que é extremamente mais
eficiente aquecer lá o leitinho do pequeno almoço em vez de o fazer no fogão,
onde acaba sempre por ferver e formar aquela espécie de película de requeijão.
Não tanto, mas semelhantemente mau, é a fome que vais passar não tendo sítio
para aquecer os tupperwares que a tua mãe te mandou para jantar (vais sentir a
dor se és, foste ou conheces um estudante universitário dos modernos).
Quanto à
televisão, excepto se tiveres mais de 85 anos em que te vai fazer falta a
novela, ou se fores um jovem na flor da idade e tiveres acabado de pagar a
renovação da subscrição dos canais que normalmente estão bloqueados (os de
desporto), vai ser uma forma de te livrares daquele mono que tens lá em casa a
ocupar espaço, dado que tudo o que antes lá fazias também já podes fazer na
Internet de forma mais fácil!!
No
caso do carro, também já estava na altura!! Ainda para mais se vives em Lisboa,
gostas de sovaqueira, aprecias esfregar-te em estranhos e só trabalhas de duas
em duas semanas (que tendo em conta a frequência de metros a passar por estação
e a afluência em hora de ponta, vai ser mais ou menos o tempo que demorarás a
chegar ao teu local de trabalho). Resumindo, se és uma pessoa normal, vais
ficar até agradecido!!
Absurdo??
Parece-me que não, pelo menos, para já, se viveres na Arábia Saudita. Com a
apresentação da Sophia no Web Summit (agora como cidadã árabe, sendo que já no
ano passado tinha marcado presença mas apenas como, se não estou em erro,
mulher árabe), ficámos a conhecer o ponto de situação da inteligência
artificial: uma máquina que pensa, sente e tem direitos como qualquer outro
cidadão.
Fiquei
realmente a pensar que seria muito giro trazer as Sophias para Portugal e ter
muitas Sophias lá em casa. Pelo menos, até elas terem um tempinho para
processarem (linguagem de máquina) a constituição portuguesa. Aí, iriam
descobrir maravilhas como a greve, a baixa, a licença e ainda a reforma
antecipada. Acontece que, nessa altura, ao contrário do país de origem, se
desses um berro de frustração não viria a “máquina” de substituição. Na melhor
das hipóteses, viria a tua mulher acalmar-te e dizer-te que até se oferecia
para te ajudar a lavar a louça… mas só daquela vez, para não ficares mal
habituado. E que bom seria!!
Luís Queiroz
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